ausência, by José
Luis Tavares
chegou ao apartamento e dirigiu-se de imediato ao quarto, reparando
que tinha ficado a dormir todo aquele longo dia de trabalho, tão
igual a tantos outros e tão diferente nos seus momentos mínimos.
tinha presente o pequeno almoço rápido, a compra do
bilhete naquela máquina que detesta, as trocas de configuração
pelos tubos subterrâneos de azulejos brilhantes, a espera
frente à caixa do elevador que não vinha, o primeiro
café a fumegar na secretária, o homem cinzento desprezível
da reunião da sala do fundo, a pausa reforçada a que
se tinha permitido a seguir ao almoço, a conversa mesquinha
do sub-gerente do departamento internacional, a esferográfica
a cair ao chão exactamente para debaixo do volume pesado
do servidor, o toque nervoso do telefax a anunciar o último
metro de papel, o ponteiro grande a passar as sete certas e montes
de ideias e correcções e lembranças ainda a
apontar, os novos post-its azul-água-dos-mares-tropicais
pousados sobre todas as mesas menos na dele, o metro de regresso,
o acordeão romeno a tilintar moedas pequenas, a cabeça
a cair-lhe descontroladamente sobre o peito, o arfar das escadas
há segundos atrás. mas agora via-se a si mesmo, ali,
ainda a dormir profundamente, silencioso, perdido pelos lençóis
terracota, o cheiro a sono prolongado, o som microscópico
do r.e.m.. sentia-se confundido com a impossibilidade deste quadro
real como uma fotografia. o espaço estava limitado por quatro
cantos, com uma ligeira moldura branca, absolutamente nítido,
com uma luz de noite de inverno. certos elementos do quarto eram
cortados pela força incompreensível do lugar, negava-se
a considerar a situaçao como sonho, declinava também
a hipótese realidade. estava assim entre dois cubos, cada
qual mais real que o outro, cada qual ele próprio, cada qual
mais improvável. por um momento imaginou que a repetição
dos dias não era mais que um sono eterno naquele quarto,
mas também porquê aquele quarto, para sono eterno não
seria necessário espaço, e depois as memórias
tão certas do dia todo, e a atmosfera tão comum do
quarto durante o sono, exactamente como ele sempre a teria imaginado.
estava perdido mas aceitava a condição com uma insipidez
enervante, sem interesse algum na fenomenologia dos acontecimentos.
resolveu levantar os lençois e sob eles descobriu a ausência
de um corpo. sorriu. sentiu-se estúpido e senhor do seu mundo
ao mesmo tempo. escolheu um par de calças e uma t-shirt casuais,
despiu-se do suor entranhado de quotidit ano. debaixo do fato, da
camisa, a dar forma de homem à sua personalidade havia um
vazio, um buraco no ar, não havia corpo, não havia
nada. restou um apartamento vazio como uma fotografia e uma cidade
cheia de tudo o que já tinha excepto a memória de
mais um longo dia de trabalho, tão igual a tantos outros
e tão diferente nos seus momentos mínimos.
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