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no title
2003
0.77 x 0.60 x 0.25 m
textile, epoxy, acrylic paint + text

ausência, by José Luis Tavares


chegou ao apartamento e dirigiu-se de imediato ao quarto, reparando que tinha ficado a dormir todo aquele longo dia de trabalho, tão igual a tantos outros e tão diferente nos seus momentos mínimos. tinha presente o pequeno almoço rápido, a compra do bilhete naquela máquina que detesta, as trocas de configuração pelos tubos subterrâneos de azulejos brilhantes, a espera frente à caixa do elevador que não vinha, o primeiro café a fumegar na secretária, o homem cinzento desprezível da reunião da sala do fundo, a pausa reforçada a que se tinha permitido a seguir ao almoço, a conversa mesquinha do sub-gerente do departamento internacional, a esferográfica a cair ao chão exactamente para debaixo do volume pesado do servidor, o toque nervoso do telefax a anunciar o último metro de papel, o ponteiro grande a passar as sete certas e montes de ideias e correcções e lembranças ainda a apontar, os novos post-its azul-água-dos-mares-tropicais pousados sobre todas as mesas menos na dele, o metro de regresso, o acordeão romeno a tilintar moedas pequenas, a cabeça a cair-lhe descontroladamente sobre o peito, o arfar das escadas há segundos atrás. mas agora via-se a si mesmo, ali, ainda a dormir profundamente, silencioso, perdido pelos lençóis terracota, o cheiro a sono prolongado, o som microscópico do r.e.m.. sentia-se confundido com a impossibilidade deste quadro real como uma fotografia. o espaço estava limitado por quatro cantos, com uma ligeira moldura branca, absolutamente nítido, com uma luz de noite de inverno. certos elementos do quarto eram cortados pela força incompreensível do lugar, negava-se a considerar a situaçao como sonho, declinava também a hipótese realidade. estava assim entre dois cubos, cada qual mais real que o outro, cada qual ele próprio, cada qual mais improvável. por um momento imaginou que a repetição dos dias não era mais que um sono eterno naquele quarto, mas também porquê aquele quarto, para sono eterno não seria necessário espaço, e depois as memórias tão certas do dia todo, e a atmosfera tão comum do quarto durante o sono, exactamente como ele sempre a teria imaginado. estava perdido mas aceitava a condição com uma insipidez enervante, sem interesse algum na fenomenologia dos acontecimentos. resolveu levantar os lençois e sob eles descobriu a ausência de um corpo. sorriu. sentiu-se estúpido e senhor do seu mundo ao mesmo tempo. escolheu um par de calças e uma t-shirt casuais, despiu-se do suor entranhado de quotidit ano. debaixo do fato, da camisa, a dar forma de homem à sua personalidade havia um vazio, um buraco no ar, não havia corpo, não havia nada. restou um apartamento vazio como uma fotografia e uma cidade cheia de tudo o que já tinha excepto a memória de mais um longo dia de trabalho, tão igual a tantos outros e tão diferente nos seus momentos mínimos.

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